Já parou para pensar se a saída para as cidades mais sustentáveis estivesse na altura do olhar de uma criança? Em um cenário de colapso ambiental e urbanização acelerada, iniciativas que colocam as infâncias no centro do planejamento urbano mostram que criar espaços mais verdes, acessíveis e vivos pode ser decisivo para o enfrentamento da crise climática e para garantir a sustentabilidade das cidades.
Essa mudança também passa por algo fundamental que é garantir que crianças tenham contato cotidiano com a natureza, que pode ser uma grande educadora da infância, como defende a comunicadora socioambiental Laila Zaid.
“Quando uma criança pula de uma pedra para outra, ela faz cálculos mentais, quando vê um inseto morto, vai entrando em contato com os ciclos da vida. Quando ela sobe em uma árvore entra em contato com um sentimento ancestral de proteção que ela só vai sentir quando fizer isso”, afirma Laila.
É justamente esse olhar, que valoriza a experiência da criança com o mundo, que orienta movimentos que impactam a criação de políticas públicas, como a Urban95, iniciativa global da Fundação Van Lee. Para dar início à sua atuação nas cidades, a Urban95, faz a seguinte provocação aos gestores públicos: Se você tivesse a altura de 95 centímetros, o que mede uma criança de 3 anos, como você enxergaria sua cidade?
A partir dessa reflexão, a organização atua em parceria com municípios para planejar cidades mais amigáveis às crianças e seus cuidadores. A iniciativa reúne cerca de 70 municípios e é coordenada pelo Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip).
O trabalho vai além da criação de parques e praças, envolve também a revitalização dos trajetos percorridos diariamente pelas famílias. “Nos grandes centros urbanos as crianças vivem em caixinhas. Sai da caixinha da casa, entra na caixinha do carro, vai para casa da vó ou para a creche que são outras caixinhas. Em que momento ela vai vivenciar a cidade?”, questiona Isabella Gregory, consultora em urbanismo da Urban 95 Brasil.
Outra iniciativa que traz o protagonismo para a infância é a Co-Criança que executa seus projetos, especialmente em escolas públicas, a partir da escuta e desejos dos alunos. Entre os trabalhos já desenvolvidos há espaços verdes, plantio de mini-florestas, canteiros agroecológicos e até pequenos lagos dentro das escolas, mas também há projetos nas cidades.
“Se temos o poder de transformar e revitalizar um espaço, temos a obrigação de trazer a natureza pela sua importância para as infâncias. Ela é sempre uma diretriz do projeto”, explica Camila Audrey, diretora de projetos da Co-Criança.
Depois de falarem de seus desejos e sonhos para a escola e participarem da construção dos projetos, as crianças acompanham as obras nas quais decidiram em grupo e têm oportunidade de conversar com os pedreiros durante as construções.
“A ideia é que elas entendam que há pessoas que estão construindo, que a obra não acontece por um passe de mágica. Há um processo e uma articulação, elas têm os desejos e as ideias, a gente projeta, alguém executa. Esse fazer coletivo é transformador”, diz Camila.
Por que a criança não é lembrada?
Para que a criança ganhe mais protagonismo na construção das cidades, ainda é necessário ampliar a sensibilização sobre como fatores como poluição, calor extremo e escassez de áreas verdes impactam seu desenvolvimento. Mesmo quando essa consciência existe na alta liderança das Prefeituras, ela nem sempre se traduz nos projetos urbanísticos, esbarrando em barreiras técnicas entre arquitetos e equipes responsáveis pela execução.
“A gente não fala de infância na faculdade de arquitetura, não é um tema. A priori as áreas que cuidam das crianças são educação, assistência e saúde, mas se a gente precisa de uma aldeia para criar uma criança, todo mundo deve ser responsável por ela, inclusive os setores que parecem não ter relação direta”, diz Marieta Colucci, arquiteta e urbanista da Urban95.
Diante da importância de conscientizar as equipes de obras e infraestrutura sobre a infância, Marieta se lembra de um caso emblemático durante um projeto em que um funcionário responsável por pinturas e manutenções básicas na cidade passou a pintar amarelinhas nos espaços ociosos do entorno das escolas. Na mesma linha, depois de limpar terrenos baldios, ele criava tocos que funcionavam como bancos para as pessoas sentarem nesses locais. “Era um servidor público que entendeu a lógica.”
A criação de projetos mais amigáveis à infância também esbarra em entraves como o fato de as cidades serem criadas para atender a uma lógica de produtividade que é voltada somente aos adultos.
“No senso comum as pessoas acham que não se pode diminuir o espaço de circulação do carro, tirar vagas, reduzir a pista, diminuir a velocidade do trânsito, que são questões que fazem uma cidade melhor para as crianças e para todo mundo. Mas no fim, as pessoas sentem que isso vai reduzir a experiência delas”, complementa Marieta.
Menos paredes e plásticos; mais natureza e escuta
As escolas podem ser espaços potentes de mobilização e protagonismo, com impacto que se estende para além de seus muros e alcança a cidade. Uma das estratégias da Urban95 é investir no “desemparedamento” e na naturalização dos pátios escolares, incentivando os alunos a saírem das salas de aula e a terem contato com a natureza dentro ou no entorno da escola.
“Nem toda a escola vai ter espaço para fazer um grande jardim, mas temos estratégias para transformar pequenos espaços e levar a natureza para dentro da escola, pelo menos alguns elementos naturais. Para que a criança deixe os brinquedos plásticos e essa plastificação da infância”, afirma Marieta.
Os projetos da Co-Criança também têm essa missão, apostando na “diversidade lúdica”. Camila explica que os desenhos tanto para dentro das escolas quanto para cidade, privilegiam a integração dos espaços, ampliando a ideia do parquinho isolado.
“Pensamos na integração dos espaços, o pátio integrado ao ensino na escola ou o espaço de brincar junto da praça na cidade, para que tenhamos uma cidade lúdica, uma cidade brincante, não necessariamente uma ‘ilhinha.’ Para que a criança não fique só parquinho e tenha toda a cidade para ela”, conta Camila Sawaia, diretora pedagógica da Co-Criança.
‘Aja localmente’
Se o contato com a natureza traz uma série de benefícios e vantagens para o desenvolvimento da criança, o afastamento gera uma série de rupturas. “No final é uma desconexão com o próprio corpo, com o tempo, com os ciclos. As crianças perdem literalmente espaço físico de brincar, de correr, de ocupar. Ficam presas dentro de suas casas e aí elas mergulham para dentro das telas e sabemos todos os problemas que elas trazem”, diz Laila.
Além disso, a ativista reforça outros impactos, como os problemas físicos e sociais que as crianças que não são brincantes têm mais risco de desenvolver. “Fora toda a pegada de um individualismo, de uma infância que é muito solitária, pouco viva. Isso entristece demais.”
Um caminho para mudar essa realidade é melhorar o planeta para Laila é “se engajar no micro”, o que tem sido, para ela, um processo de “cura emocional.” “Sabe o pense global e aja localmente? Acho que quando a gente escolhe lutas locais e consegue ver a transformação acontecendo é muito prazeroso. Onde você pode fazer a diferença? É dentro da escola, na sua vizinhança ou no seu prédio? Faça isso e leve seu jovem com você.”
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