Camilla Antunes revisita memórias por meio de fotografias.

Professor Cazzali em fotografia realizado em ambiente interno.

lang="pt-BR">Nem tudo precisa ser postado: a volta da fotografia em álbuns
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Nem tudo precisa ser postado: a volta dos álbuns de fotos

Colagem com fotografia de crianças e famílias em viagens e momentos ao ar livre, organizadas como um álbum de memórias.

Álbum de fotos reúne registros de crianças e famílias em diferentes momentos e viagens.

Quando Davi tinha 5 anos, perguntou à mãe: “Por que eu não tenho nenhum álbum de fotografia?”. O questionamento surpreendeu Camilla Antunes. Fotógrafa e especialista em eternizar momentos, ela se deu conta de que, embora tivesse incontáveis registros digitais do filho, faltava justamente o que marcou gerações de famílias: um álbum de fotos para folhear.

No aniversário seguinte, o problema foi resolvido. Davi ganhou um álbum para cada ano de vida e os registros acabaram circulando entres os amigos e familiares justamente no dia de sua festa. “Foi passando de mesa em mesa, as pessoas foram se reconhecendo nas fotos”, diz. “Mesmo trabalhando com fotografia naquele momento tive a noção do impacto dos álbuns na vida das crianças e das famílias”, conta Camilla.

Desde então ela monta álbuns dos aniversários dos filhos, Davi já tem 14 e João, 7 – à medida que eles crescem, os tamanhos dos álbuns diminuem, é claro, mas não deixam de existir. A mãe se lembra de “revelar” filmes com fotos de 36 poses antigamente e depois organizar os álbuns, como uma espécie de edição da época e hoje se preocupa com o fato de os registros estarem somente no universo digital.

“Como vai ser a longo prazo? Como a história que vivemos será contada se está tudo perdido no computador? Precisamos ter ciência do grande problema que é isso”, afirma. A dica de Camilla é para que as famílias definam um “fio condutor” para criar seus registros em papel. Ela começou pelos aniversários das crianças e agora quer investir nos álbuns de viagens.

Preservação da memória afetiva e familiar através da fotografia

O resgate dos álbuns de fotos impressos também pode representar ferramentas de preservação da memória afetiva e familiar. Quem nunca na infância se emocionou ao recorrer ao baú de fotos na casa dos pais ou dos avós? Diferentemente da abstração das imagens digitais, a fotografia física proporciona uma experiência tátil e sensorial impossível de ser reproduzida por uma tela.

O professor de fotografia Antonio Rogério Cazzali conta que sempre brinca com seus alunos ao questioná-los sobre qual é o maior sonho de uma foto digital: “Eles pensam e nem sempre conseguem responder. Mas é virar papel, aquela que consegue virar papel é uma privilegiada.”

Em suas oficinas de fotografia, ele desafia os alunos a fazerem 36 fotos na sequência sem apagar nenhuma e nem ultrapassar esse limite para que eles sintam a limitação que havia no modelo analógico.

Abrir aquele baú de fotos antigas da família ou mesmo acessar aquele amontoado de fotos soltas na clássica caixa de sapato nem sempre pode ser um momento que vai despertar somente felicidade, também pode haver saudade. Nesses momentos é possível reviver lembranças com pessoas e animais que já se foram, por exemplo. “Mas é uma experiência muito diferente de ver as fotos na tela do celular, porque as pessoas se sentam próximas umas das outras, há troca afetiva e memória envolvida”, conta Cazzali.

Para o professor, a fotografia analógica e a retomada dos álbuns também estão relacionadas à “necessidade que estamos sentindo de dominarmos um pouco mais o tempo, que hoje nos escapa com uma rapidez incrível.”

Quem tem os álbuns físicos também garante a vantagem de ficar imune aos problemas técnicos, como panes ou roubos, que podem afetar as fotografias armazenadas exclusivamente no ambiente digital. 

Menos posts, mais presença

O fato de voltar a montar os álbuns da própria família também mudou outro hábito de Camilla: ela passou a postar menos fotos dos filhos nas redes sociais. Hoje ela diz que está mais “recolhida” do que era há dois anos. “Ao me retirar mais da internet, sinto que estou vivendo o real com mais intensidade”, conta. “A internet é uma realidade, ela nunca mais irá embora das nossas vidas, mas é preciso usar de forma mais assertiva e consciente.”

Em 2024, a Human Rights Watch (HRW), organização internacional de defesa e pesquisa em direitos humanos, mostrou que fotos de crianças e adolescentes brasileiros estavam sendo usadas para alimentar plataformas de inteligência artificial, sem o conhecimento ou a autorização dos pais e responsáveis legais.

Além do risco com a segurança, as redes sociais também reforçam uma realidade inexistente com “imagens perfeitas” de uma vida pouco acessível. “As crianças de hoje já estão nascendo com a foto digital tratada, a imagem perfeita porque na foto digital se saiu errado você apaga e ninguém vê”, diz Cazzali. “Já a foto analógica capta um processo da aceitação da humanidade de quem fez aquela foto, minhas virtudes e falhas. É mais difícil de acertar, porém é bem mais verdadeiro”, finaliza o professor.

Quatro passos para começar seu resgate fotográfico analógico

Defina um fio condutor: Para não se perder no excesso de imagens, escolha marcos temporais, como aniversários ou viagens, para criar seus álbuns.

Monte aos poucos: anos de histórias não cabem em poucas semanas. Escolha com cuidado o que imprimir e monte os álbuns gradualmente. 

Aceite as falhas das imagens: Ao contrário do digital, que busca a perfeição tratada, a foto física e analógica podem ter defeitos. Valorize-os.

Promova o compartilhamento coletivo: Transforme o ato de ver fotos em um evento social. Sentar-se para abrir um baú ou caixa de fotos impressas gera uma troca afetiva e memória muito superior ao ato individual de passar imagens rapidamente em uma tela ou compartilhá-las online. 

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