Foi na praça do bairro que duas irmãs aprenderam lições tão importantes quanto as da escola. As tarefas não tinham tabuadas ou verbos, mas tinham pipa, ciranda e elástico para pular. “O que eu mais gosto é poder brincar num momento fora da tela, perto da natureza, para me conectar. Isso me faz sentir bem e é bom pra mim”, diz Olívia, 11 anos.
Já Cecília, de 15 anos, revela que a parte favorita é encontrar as pessoas. “Acho que isso faz muito bem para a socialização”. Para a mãe das meninas, a educadora Flávia Pellegrini, as filhas descobriram que a vida real pode ter mais momentos além da rotina “casa e escola”. Nesse caso, encontraram na praça um terceiro lugar para a convivência.
Há dez anos, a família toca o projeto Na Pracinha, que ocupa lugares públicos de Belo Horizonte (MG). A ideia é oferecer momentos despretensiosos para que pessoas de todas as idades aproveitem a cidade. “Quando passeávamos pelo bairro, ainda com o carrinho de bebê, a praça estava sempre vazia, pois era só um lugar de passagem”, lembra Flávia.
Na época, cada vez que procurava uma programação infantil, sentia que as opções eram espaços privados ou associados ao consumo. “Faltavam oportunidades de convivência espontânea”, conta. Segundo Flávia, que também é especialista em antropologia das infâncias, essa falta pode ser um reflexo de uma sociedade acelerada e cada vez mais ligada ao contato mediado por telas. “Cresci brincando lá fora. Muitos dos afetos do tempo de criança foram criados na praça, na fazenda, na rua”, pontua.
Esses locais fazem parte dos chamados terceiros lugares, como nomeou o sociólogo estadunidense Ray Oldenburg. Seriam, portanto, pontos de socialização saudável, onde as pessoas trocam ideias, passam um tempo de qualidade e aprendem a conviver. A ideia original, cunhada no livro The Great Good Place, de 1989, se aplica à vida adulta, mas vale também para o contexto da infância, com efeitos ainda mais visíveis.
Ray Oldenburg defendia o equilíbrio entre três lugares:
- Primeiro lugar: a casa (família)
- Segundo lugar: o ambiente de trabalho (ou a escola para as crianças e adolescentes)
- Terceiro lugar: espaços de convivência (praças, bibliotecas, centros culturais, ruas)
Os benefícios para o desenvolvimento infanto-juvenil
O terceiro lugar é um escape da rotina mecânica. Para Oldenburg, são espaços importantes porque oferecem conforto psicológico. Trata-se de um ambiente em que a pessoa se sente segura e à vontade para se expressar. É onde ela pode apenas ser quem é, sem cobranças.
Mas o desaparecimento desses locais pode afetar diretamente a saúde mental das novas gerações. O contexto de uma infância cada vez mais emparedada, sobretudo nos grandes centros urbanos, implica queda da interação social e de novas experiências, conforme aponta a pesquisa norte-americana “Fechamento de ‘terceiros lugares’? Explorando as possíveis consequências para a saúde e o bem-estar coletivos”. Publicada na revista científica Heath & Place (Saúde e Lugar), em 2019, a pesquisa cita que esses espaços “oferecem um ambiente para brincadeiras independentes e interações sociais que proporcionam oportunidades para as crianças improvisarem uma vida social, desenvolverem habilidades sociais e ampliarem suas competências.”
A neurocientista Adele Diamond, professora da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, afirma em seus estudos que atividades culturais com interação social beneficiam diretamente o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes. Uma das pioneiras nas pesquisas da neurociência cognitiva do desenvolvimento, Diamond pontua que as experiências artísticas, sociais e esportivas ajudam a desenvolver habilidades como raciocínio, solução de problemas e flexibilidade cognitiva.
Esses benefícios são evidentes, por exemplo, na formação de Olívia e Cecília. “Elas aprenderam a conviver com pessoas de diferentes idades e modos de ser. Fizeram amizades improváveis, desenvolveram autonomia para negociar brincadeiras, lidar com frustrações, cuidar dos menores e serem acolhidas pelos mais velhos”, conta Flávia Pellegrini.
A ocupação afetiva nas praças da capital mineira ampliou o repertório de mundo das meninas. “A socialização deixou de depender exclusivamente dos ambientes formais, como a escola”, aponta a mãe. Além disso, elas reduziram o tempo de telas e descobriram como é importante pertencer a uma comunidade. “Gosto muito de encontrar a minha família e ajudar a arrumar as coisas para os encontros na praça”, diz Cecília, que recebeu o cargo de “assistente de produção aprendiz”, e ajuda na organização nos dias dos eventos.
Criar comunidades e descobrir as diferenças
Em Belém (PA), a professora Lorena Salgado também enxergou que brincar fora de casa pode ser enriquecedor. “Há um certo encantamento porque é um lugar diferente do usual que as crianças brincam, como dentro de casa ou na escola, onde normalmente encontram crianças da mesma classe social”, diz.
Lorena coordena um projeto coletivo de ocupação de ruas da capital paraense. Assim como Flávia, ela notou que as crianças precisavam da cidade e a cidade das crianças. O contexto foi justamente na época do isolamento social da pandemia. Junto com as amigas, criou no final de 2020 o Puxirum — palavra de origem tupi-guarani entendida como “ajuntamento” ou um trabalho feito em conjunto.
“A gente tinha afinidades ideológicas e observou que o mundo e a sociedade estavam muito carentes de comunidade e de espaços para se encontrar enquanto vizinhos, enquanto coletivo e socializar mesmo”, explica. O primeiro encontro uniu diversão e educação ambiental com uma ação de limpeza na rua de um bairro histórico. Nesse momento, os filhos e filhas do grupo aprenderam sobre descarte correto de lixo, importância de manter a cidade limpa e deram um toque lúdico na rua com uma simples amarelinha desenhada no chão.
“Nossa ideia é trazer algo criativo e que tenha a pegada da sustentabilidade para introduzir nas crianças essa mentalidade, além de levá-las para a rua, que é a parte mais importante”, conta Lorena. Hoje, o Puxirum é parte de uma programação intensa de circulação de espaços públicos aos fins de semana em Belém.
A ideia é fechar ruas e levar meninos e meninas a ocuparem esses espaços com brincadeiras na calçada, pega-pega, bola, piscina de plástico e momentos de criar sem cobranças. “As famílias vêm do bairro e de fora. É sempre uma farra. Ficamos com o coração muito cheio, pois é um trabalho 100% voluntário e que fazemos por amor e para incentivar as pessoas a terem esse olhar diferenciado para a rua.”
Terceiros lugares também podem ser pontos de acolhimento
Se as praças e as ruas surgem como opções mais simples de terceiros lugares, há também espaços coletivos mantidos por Organizações Não-Governamentais, como a Casa 1. O local fica em São Paulo e existe desde 2017. O que começou como um ponto de acolhida para a população LGBTQIAPN+, atualmente conta com serviços de escuta, terapias, biblioteca, oficinas e cursos voltados para a arte e cultura.
O lugar recebe crianças e adolescentes que frequentam os eventos com as famílias. “Temos oficinas voltadas exclusivamente para crianças e outras oficinas que elas podem participar à vontade, como a de cozinha comunitária, de artes gráficas, além das apresentações e da contação de histórias na biblioteca”, conta Iran Giusti, diretor e criador do centro.
Para ele, a Casa 1 é um terceiro lugar por reunir a comunidade e ter a premissa das portas abertas. “É um local de trocas e de respeito”, diz. Em casos específicos, o lugar também oferta atenção primária com o acolhimento e o atendimento especializado na clínica social. “Começamos como um centro de acolhida de jovens expulsos de casa por orientação afetiva, sexual ou identidade de gênero. Mas, hoje, também somos um espaço de socioeducação, de convivência e de construção de repertório.”
Na rotina, as crianças e os adolescentes sempre são bem-vindos e já é comum que circulem pela biblioteca ou nas aulas de crochê, pintura e dança. Para Iran, além de ser positivo para a comunidade, a presença infanto-juvenil na Casa 1 é essencial para o combate à homofobia e outros preconceitos. Segundo ele, isso acontece de forma orgânica.
“É muito importante para a Casa 1 que as crianças e os adolescentes estejam aqui, independente de serem LGBTQ+ ou não. É fundamental porque isso quebra os preconceitos e faz com que todas se sintam extremamente confortáveis.”
Como encontrar esses lugares?
Os três projetos desta reportagem surgiram da inquietação de pessoas comuns. Cada uma mobilizou seus grupos de amigos ou familiares para atender demandas sociais urgentes: famílias buscavam se reconectar à cidade como local de descanso, crianças precisavam da rua para brincar e jovens precisavam de um lugar seguro para ser quem são e pertencer a uma comunidade.
O saldo de contar com terceiros lugares é positivo para quem já encontrou esses locais de respiro. Então, que tal procurar um lugar mais próximo para socializar sem precisar de produtividade? Confira algumas opções que o Lunetas listou com a ajuda dos entrevistados:
- Praças e parques: faça piqueniques, combine um passeio coletivo de bicicleta, um encontro com crianças e animais de estimação.
- Bibliotecas públicas: visite esses espaços, faça o cadastro, procure clubes de leitura, gibitecas e contação de histórias.
- ONGs: procure organizações próximas que ofereçam oficinas ou atividades lúdicas para crianças.
- Barracões e ateliês de cultura popular: visite locais da região, pode ser uma escola de samba, de boi-bumbá ou de outras manifestações culturais.
- Espaços de convivência: centros comunitários e espaços coletivos como o Sesc oferecem atividades esportivas e culturais.
- Festas populares: viva as manifestações regionais da cidade, como desfiles, arraiais, paradas e festividades.
- Museus e centros culturais: visite exposições, participe de clube de ciências e outros encontros.
- Espaços religiosos: igrejas, templos, terreiros e centros comunitários ligados a religiões costumam ter grupos de convivência, atividades culturais e programações infantis abertas ao público.
