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Quantas funções cabem na rotina de uma professora?

Imagem de uma professora lendo um livro para crianças que estão sentadas à sua volta

Em mais de duas décadas de docência, Gisleide (Gisa) Gonçalves já precisou se dividir entre duas escolas com funções diferentes. Também chegou a trabalhar nos três turnos, das 7h30 às 21h40 diariamente. Hoje ela concentra sua carga em uma única escola da rede municipal do Rio de Janeiro, localizada no Complexo da Maré. Lá, leciona para alunos com deficiência, na sala de recursos. Na prática, a rotina de professor que ela descreve mostra o peso das múltiplas funções na escola.

Gisa Gonçalves, professora há mais de 20 anos, fala sobre os desafios da docência em uma escola no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Dividir a semana entre várias escolas é parte da rotina de professor para 20% dos docentes que atuam no Ensino Fundamental nas escolas brasileiras. Entre os profissionais que lecionam para o Ensino Médio, o índice sobe para 36%. Os dados são da pesquisa “Trabalho docente em uma única escola”, lançada pela Fundação Carlos Chagas. Assim, a atuação dispersa impacta o rendimento dos estudantes e adoece professores.

A rotina de professor e a “função Bombril”

No dia a dia, seja em uma ou mais escolas, Gisa relata que a rotina de professor abarca uma quantidade quase incalculável de papéis. Ela define isso como a “‘função Bombril’, de mil e uma utilidades”. Isso porque o docente acaba exercendo tarefas que vão muito além daquela para a qual estudou.

Durante sua carreira, conta que já fez curativos diários em ferida de uma criança. Além disso, já precisou usar o próprio carro para percorrer as ruas do bairro. Ela tentava descobrir onde morava um aluno cuja família não tinha ido buscá-lo ao fim do turno. Essas foram apenas algumas entre tantas outras situações.

“Vamos de educadores, a assistente social, psicólogo, conselheiro matrimonial, enfermeiro… Nesses anos todos até entrar em um bueiro para pegar uma colmeia de abelha em uma escola eu já entrei”, diz.

Por que a rotina de professor ainda vale a pena?

Apesar de se incomodar com a sobrecarga absorvendo demandas de outros profissionais, Gisa diz que não se exime de ajudar os alunos. Afinal, ela entende que seu trabalho lida com vidas e crianças que não têm culpa pelas falhas do sistema público. O que a mantém na profissão há mais de 20 anos é a convicção de que a docência continua sendo capaz de mudar o mundo. Ela acredita que a docência também consegue transformar pessoas, seus olhares, sentimentos e valores.

Para ela, a profissão ainda vale a pena pelo retorno humano e pelo impacto real na vida dos alunos. Mas Gisa já pensou em desistir. Um desses momentos veio após uma operação policial da Maré. Uma bala perdida chegou à escola e quase atingiu uma professora grávida que estava na sua frente.

“Nesse dia eu voltei para casa muito certa de que não iria mais ficar, que era muito estresse. Mas quando voltei para escola no dia seguinte, uma aluna veio me abraçar e me deu um desenho em agradecimento porque eu a acalmei durante o tiroteio. Como é que a gente faz para desistir?”

Ela cita com orgulho o caso de uma ex-aluna aprovada na universidade pública. A jovem enviou uma mensagem para ela pelas redes sociais dizendo: “Tia Gisa, você faz parte disso”. Ou seja, são esses gestos que a mantêm na profissão. “Uma mãe bordou meu nome em uma toalhinha, outra fez um bolo para me agradar, mesmo sem ter condições. Um aluno que tem dificuldade de ler e consegue ler as primeiras palavras, dá um sorrisão”, conta. Outras histórias de alunos e professores lembram que celebrar quem ensina é tarefa de todo dia.

Apagão docente

Pesquisa do Instituto Semesp aponta barreiras à atratividade e à permanência dos jovens na carreira docente. Entre elas estão a baixa valorização social, a insatisfação com a remuneração e os impactos do trabalho sobre a saúde dos professores. O Semesp estima que até 2040 podem faltar 235 mil professores na educação básica. Antes disso, o Lunetas já perguntou: quem ainda quer ser professor?

Diante desse cenário, manter os professores motivados e valorizados também passa pelo apoio das redes de ensino. Bruna Waitman é diretora de Relações Institucionais e Políticas Públicas da Parceiros da Educação. Para ela, um dos elementos mais importantes é dar clareza ao professor sobre o sonho daquela rede. Isso apoia o professor e, portanto, gera senso de pertencimento e motivação.

Bruna Waitman, da Parceiros da Educação, destaca o papel das redes de ensino na valorização e motivação dos professores.

“Seja zerar o número de alunos abaixo do básico, garantir mais equidade, ou avançar na aprendizagem, o professor precisa saber qual é essa visão e entender quais são as condições para chegar lá”, diz. “Além disso, é muito importante que os professores tenham canais e conheçam os caminhos para pedir ajuda com programas focados em convivência, desenvolvimento socioemocional, por exemplo. Tudo isso sempre de uma perspectiva de olhar de maneira integral o estudante”, finaliza.

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