Acervo pessoal

A escritora Carol Campos segura o seu livro "Duas Mamães", que retrata a dupla maternidade e contribui para ampliar a representatividade das diferentes configurações familiares na literatura infantil.

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Ilustração do livro Duas Mamães mostra uma cena de lazer em família e reforça a representatividade da dupla maternidade na literatura infantil.

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Como falar com as crianças sobre dupla maternidade ou paternidade?

Duas mulheres brincam com um bebê no sofá. As três pessoas são negras e usam roupas claras.

Cena de carinho entre duas mães e um bebê ilustra os vínculos afetivos presentes na dupla maternidade.

“Cadê o papai do Pedro, ele virou ‘estrelinha’?” Quando a sobrinha de quase 3 anos questionou a escritora e crítica literária Carol Campos que é mãe de Pedro com outra mulher, ela respondeu com naturalidade que ele não tinha um pai, mas que não havia morrido, pois nunca existiu. Ela reforçou que seu filho sempre teve duas mães.

A menina voltou a brincar, mas não pareceu convencida com a explicação e seis meses depois voltou a questionar a tia. “Expliquei que tem criança que tem papai e mamãe, outras têm vovós, e outras têm papai e outro papai. Mas o Pedro tem duas mamães, que essa é a família dele, sempre foi e sempre vai ser”, contou.

Deixar claro que sua família estava completa e que não sentiam falta de um pai foi uma preocupação de Carol. Ela acredita que o fato de a sobrinha ter passado a frequentar a escola e conviver com outras famílias heteronormativas a fez questionar os outros modelos. Por isso, ela investiu na repetição, explicando tudo de novo.

Diversidade de arranjos familiares

A curiosidade sobre os arranjos familiares tende a aparecer quando as crianças passam a interagir com outras famílias e entender que os modelos não são iguais. Na casa das parteiras Maíra Libertad e Mariane, a dúvida da filha Maní, de 3 anos, foi sobre por que havia um pai em algumas famílias.

“A criança vai ter dúvida sobre o formato de família diferente do dela. Isso provoca uma conversa muito importante que é como as famílias que estão dentro da norma estão conversando com os seus filhos sobre a existência de outros tipos de família. É preciso que as que estão dentro da cis heteronormatividade não tratem os outros formatos de forma negativa”, diz Maíra.

Garantir que as crianças convivam com famílias cujo arranjos diferentes do dela vai permitir que ela entenda, na prática e espontânea, que há outros formatos possíveis. “Aí independente se você tem uma família que é só uma mamãe, que são duas mamães, que é uma mamãe e um papai, que são dois papais ou qualquer outro arranjo, o ideal é que aquela criança cresça conhecendo pessoas reais e crianças reais que vivem essas outras famílias”, complementa Maíra.

Para Maíra, quanto mais a família estiver dentro de um padrão, maior deve ser a importância dessa diversidade no círculo social. “São os adultos, é a cultura, é a sociedade que vai olhar isso de uma outra forma. Para criança só uma informação. Só que isso só se torna uma informação se o dia a dia dela mostrar pra ela essa diversidade.”

Outra forma de abordar o tema de maneira espontânea é investir em livros que tratam a dupla maternidade ou paternidade como pano de fundo das histórias, e não necessariamente, tratem de forma direta com viés mais teórico ou didático.

Afinal, como responder todas as dúvidas?

A partir das entrevistas com Carol Campos e Maíra Libertad, o Portal Lunetas selecionou algumas dúvidas sobre a dupla maternidade/ ou paternidade que podem surgir entre as crianças na primeira infância e como elas podem ser respondidas de forma simples, acolhedora e sem constrangimento:

Uma criança pode ter dois papais ou duas mamães?

As crianças tendem a questionar os arranjos familiares diferentes dos seus quando é exposta a eles. A curiosidade pode servir para iniciar uma conversa natural, contando que existem diferentes tipos de família do mundo: algumas têm um pai e uma mãe; outras têm uma mãe, ou somente um pai; há ainda as formadas por avós e avôs; e também as que têm dois pais ou duas mães.

O mais importante é reforçar que todos os modelos devem ser reconhecidos e respeitados igualmente. Se houver essa possibilidade, cite algumas referências, sejam elas fictícias, vindas de livros ou filmes, ou mesmo da vida real.

Mas quem faz as coisas de papai (ou de mamãe) nessa casa?

Essa é a dúvida mais frequente. Crianças tendem a associar tarefas específicas a um gênero: “Quem corta minha fruta?”, “Quem me leva para a escola?” ou “Quem me dá banho ou me coloca para dormir?” Neste caso, o ideal é explicar que, em qualquer família, as tarefas de cuidado devem ser divididas entre os adultos, independentemente de serem homens ou mulheres.

O foco deve ser na função de cuidado, respondendo algo como: “Na casa dele, as duas mamães cuidam de tudo, assim como o papai e a mamãe fazem aqui”, por exemplo.

Como é morar em uma casa que não tem um homem (ou uma mulher)?

Quando já conseguem fazer elaborações mais sofisticadas, crianças maiores podem ter uma curiosidade mais abstrata sobre a dinâmica emocional ou o ambiente da casa. A resposta para este tipo de dúvida é mostrar que a rotina de brincadeiras, refeições e regras é muito semelhante a de qualquer outra casa com crianças. É preciso reforçar a ideia de que os adultos, independentemente do gênero, devem se dividir nas atividades cotidianas, assim como as crianças também têm suas obrigações.

Onde está o papai ou mamãe dele/ dela? Virou “estrelinha”?

Crianças criadas no modelo cis heteronormativo muitas vezes podem estranhar a ausência do adulto do sexo oposto e atrelar a conceitos que conhecem como morte, representado pelo “virou estrelinha.” Nesse caso é importante esclarecer que não houve uma “perda”, e que não há nada incompleto porque sempre esteve naquele formato.

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