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Quais os desejos das crianças indígenas?

Demarcação de terras indígenas: oto em preto e branco de três crianças indígenas (2 meninas e 1 menino) em uma canoa, dentro de um rio, olhando para a câmera. Vê-se a floresta ao fundo.

Pescar, tomar banho no rio e subir nas árvores estão entre as brincadeiras preferidas de Cauã e Yanna, crianças indígenas que moram nas redondezas de Santarém no Pará, região amazônica. A natureza, para eles, é um grande quintal e não há um só dia que deixem de aproveitar sua imensidão. Por isso, o desejo latente da infância indígena é ver esse território preservado e viver livre de estigmas e visões distorcidas sobre sua cultura e tradições.

“O que eu mais gosto de fazer é tomar banho no rio e comer peixe. Nos fins de semana eu pesco com meu avô. A professora explicou que tem cidades que não têm árvores e lagos, acho isso muito triste”, diz Cauã Enrick Silva Dombroski, 8 anos, da etnia Tupinambá.

Na Aldeia Atrocal, onde vive o povo Tapajó, em Santarém, no Pará, Yanna Cristina Cardoso Reis brinca com as primas e outras crianças de pega-pega e de fazer casinhas com folhas, galhos e outros elementos naturais. Aliás, brincar é a coisa que ela mais gosta de fazer no mundo. “As crianças indígenas brincam demais, se divertem, tomam banho no igarapé e ficam se pendurando nas árvores. É uma vida boa”, conta Yanna.

A variedade de alimentos vindos da terra é um esbalde para a garota. “Tem açaí, beiju, tapioca, várias coisas muito gostosas. Na escola, a gente faz piquenique com frutas.” Os animais também garantem uma diversão à parte. Yanna é fã dos macacos. “Eles são muito fofos, mas têm os passarinhos voando e cantando que também são legais.”

Protagonismo e diferença dos povos

De Manaus, no Amazonas, Yará Sateré-Mawé, 10 anos, e Luna Manchineri, 9 anos, de Rio Branco, no Acre, dão uma verdadeira aula sobre conscientização ambiental e já lutam pelos direitos das crianças, inspiradas pelos pais que são lideranças indígenas de seus povos. Elas evidenciam seu protagonismo em espaços de decisão política participando de eventos como a COP, por meio do CAFI Parentinho, um espaço de acolhimento e escuta para crianças indígenas no Acampamento Terra Livre (ATL), uma iniciativa do COIAB.

“Nós, crianças indígenas, juntas falamos mais alto do que os adultos. Juntas somos mais potentes, conseguimos tudo que a gente quiser. Queremos nosso território demarcado, nós vamos conseguir, queremos uma educação, vamos conseguir. A gente quer um futuro melhor, preservar a natureza, a gente vai conseguir”, afirma Yará, cujo nome significa canoa pelo fato de ela ter nascido em uma embarcação.

A garota conta que a comunidade onde vive era mais limpa no passado, mas hoje está tomada pelo lixo. “Precisamos tentar preservar o máximo nossa comunidade e preservar a Amazônia que é a maior floresta do mundo, preservar os peixes, rios, animais. Os bichos que vivem na terra, no mar, nos rios.” Ela cita o ambientalista e escritor Ailton Krenak: “Ele fala que para cuidar de uma criança é preciso pé no chão, contato com a natureza, com a aldeia e com as florestas.”

Na mesma linha, Luna reforça sua preocupação em relação à sua aldeia Mamoadate, onde seu avô cresceu, mesmo morando hoje na cidade. “Os peixes e os pássaros estão sumindo, as águas estão sendo poluídas. Eu quero que isso acabe, que a gente tenha segurança de comer um peixe limpo, beber uma água sem estar poluída, ver os pássaros. A ararinha azul foi extinta e ela é muito bonita.”

Luta para manter ‘floresta em pé’ deve ser coletiva

A profunda conexão dos indígenas com a natureza desde cedo inspira a luta para conter o desmatamento, a poluição dos rios, práticas ilegais como a grilagem e o enfrentamento das mudanças climáticas, mantendo “a floresta em pé”.

Essa batalha, no entanto, exige esforço coletivo. “Precisamos estar unidos porque esta não é uma causa somente dos povos indígenas, é de toda a humanidade”, diz Luana Kaingang, coordenadora regional da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). “Quando chove, minha mãe sempre dizia: ‘Crianças, vão brincar na chuva para ela levar embora tudo o que é ruim’”, lembra. “Brincar na chuva faz parte da nossa infância.”

Nem todos os indígenas, entretanto, vivem em aldeias isoladas, cercadas pela natureza, há aqueles que estão nos territórios localizados nos contextos urbanos. Até porque muitos sobrevivem da venda de artesanato nas cidades, mas nem por isso, perdem sua identidade.

“Ser indígena é a vivência dentro do território, é o que está dentro, corre em ti, tua espiritualidade. A gente fala que onde a gente pisa hoje é território indígena, estamos em casa e deixamos isso claro para as crianças também”, diz Luana.

O Brasil possui 1.694.836 indígenas, o que representa 0,83% da população, segundo o Censo Demográfico de 2010. Destes, 240.841 mil são crianças de até 6 anos de idade — 14,2% da população indígena total. O país abriga uma das maiores diversidades socioculturais indígenas do mundo, com 305 etnias reconhecidas e mais de 274 línguas indígenas vivas.

Estereótipos ainda são barreiras

Desmistificar preconceitos e estereótipos sobre seu cotidiano é outro desejo das crianças indígenas que querem viver livres de estigmas. Yará e Luna reforçam que nem todo indígena é igual e é um erro acreditar que todos os povos compartilham as mesmas pinturas e artesanatos. Rosângela Castro Cardoso, mãe de Yanna, observa que muitas crianças que vivem na cidade acabam reproduzindo visões distorcidas, aprendidas a partir do que ouvem dos adultos.

Rosângela Castro e sua filha Yanna

“A impressão é de que a gente vive na aldeia, pelados, que não podemos ter acesso ao celular, a uma casa boa, a um carro. Que não podemos ser um médico, um doutor, que a gente não pode ser um deputado, um político. A gente não pode, na cabeça do branco é isso”, afirma Rosângela.

Frequentar a escola não indígena também pode ser um obstáculo para as crianças que relatam casos de preconceito e bullying. “Eu sofria preconceito por causa do meu cabelo cacheado, por eu ser mais escura, por eu ser indígena. Coisas que te deixam chateada porque você é diferente. Outro dia eu fiz uma palestra para os meus amigos sobre o meu povo e sobre os outros povos. Mesmo as pessoas não indígenas, também podem ser indigenistas”, diz Luna.

Depois de concluir a educação básica, garantir o acesso – e a permanência – na universidade ainda é um desafio. O fato de jovens estarem pintados, conectados ou ocupando uma sala de aula rompe uma imagem estereotipada do que seria “ser indígena”.

“Falam que somos falsos índios que não somos como está nos livros. Mas o que aconteceu é que a educação é um direito que foi tirado de nós”, diz Rosângela. Ela conta que na aldeia do Baixo Tapajós havia acesso à escola somente nos primeiros anos do Ensino Fundamental, depois disso, se a família quisesse que a criança continuasse a estudar, “os pais da gente tinham que entregar a gente para o branco.”

“Era um direito nosso que foi tirado e agora estamos buscando resgatar e isso incomoda. Mas as crianças de hoje estão sabendo mais se impor, dialogar, debater. Estão tendo mais conhecimento do que tínhamos antigamente.”

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