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O que temos a aprender com o cuidado ancestral?

Na imagem, uma mulher e uma menina indígena. Atrás delas, árvores desfocadas. A imagem possui intervenções de rabiscos coloridos.

Desde o ventre, a criança Tembé* é cuidada pela comunidade. Eles acreditam que tudo o que os pais fizerem durante a gestação pode ter consequências diretas para o bebê. Por isso, ao descobrir uma gravidez, mãe e pai não podem fazer atividades pesadas ou perigosas pela mata.

Já os Xikrin** estimulam suas crianças a aprenderem a ser quem são logo ao nascer. As mulheres da casa conversam com os recém-nascidos e contam as histórias de seu povo. Quando já sabem andar, são levados pela mão aos rituais de crescimento na infância e adolescência. Todos os adultos ensinam como ser um Xikrin. Juntos, aprendem a se pintar, a plantar, a caçar e a cuidar um dos outros.

“Para nós, povos indígenas, as crianças são a base que estrutura o conhecimento. A gente tem um princípio de que saber nascer, saber viver é saber morrer é um processo muito sensível de ensino e aprendizagem”, explica Cristine Tekoá, professora, escritora e teórica indígena Maxakali.

Ela conta que os modos originários de viver entendem as crianças como preciosas, pois são elas que irão continuar os saberes e a história de seu povo. “As crianças representam a manutenção e a continuidade, perpetuando as práticas tradicionais e próprias de transmissão de conhecimento.”

A sensibilidade com a infância é uma lição ancestral que pode remediar um tempo adoecido de pressa e de solidão, como reflete Cristine. Ela explica que estar com as crianças é uma oportunidade para ensinar e aprender. “Quando as crianças sonham e nos falam dos seus sonhos, por exemplo, estão transmitindo conhecimento também”, diz. “Com elas, é preciso se reconectar e aprender a escutar os códigos do tempo. Hoje, vivemos em um mundo imperfeito, cheio de adoecimentos por conta dessa velocidade de tanta informação.”

A professora e escritora Cristine Tekoá explica que, nas comunidades originárias, as crianças aprendem e ensinam a ser quem são desde cedo, em contato com os parentes e com a natureza.

O que precisa ser remediado

A reflexão de Cristine Tekoá é legítima, sobretudo diante dos índices de saúde mental infanto-juvenil. Entre 2013 e 2023, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS) registrou a proporção de 282 adolescentes diagnosticados com ansiedade para cada 100 mil. Isso corresponde a mais do que o dobro de pessoas acima dos 20 anos. Ou seja, vivemos, hoje, uma situação em que crianças e adolescentes estão estatisticamente mais ansiosos do que os adultos.

Essa realidade não está tão distante das vivências originárias. Um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) identificou que 1 em cada 4 indígenas do povo Xavante apresenta sinais de sofrimento psíquico nas 10 aldeias pesquisadas. Segundo os resultados, os casos mais comuns são ansiedade e depressão. A situação está diretamente relacionada à perda de território, enfraquecimento de tradições culturais, conflitos com não indígenas, discriminação e dificuldade de acesso a políticas públicas.

Em Manaus, capital brasileira com a maior população indígena segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pedagoga e coordenadora escolar, Clarice Tukano, percebe o quanto os casos de ansiedade e isolamento social estão afetando os adolescentes em sala de aula. “Muitos alunos enfrentam pressões sociais, familiares e digitais que impactam diretamente sua saúde mental e seu processo de aprendizagem”, diz. “Nas escolas, isso se manifesta por meio do isolamento, da baixa autoestima, da desmotivação, de conflitos e, em alguns casos, da evasão escolar.”

Clarice explica que isso acontece principalmente quando as famílias indígenas precisam deixar suas comunidades para viver em cidades, onde os adolescentes continuam os estudos. Ela, que também é presidente da Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN), ressalta que a saúde mental do filhos é um tema recorrente nas reuniões com as participantes. “As mulheres compartilham experiências sobre os desafios emocionais vividos por elas e por seus filhos, especialmente diante das dificuldades enfrentadas na cidade, como o preconceito, a saudade dos territórios de origem e as responsabilidades do cotidiano.”

Nessas situações, ela diz que reviver os ensinamentos originários de forma compartilhada é uma solução eficaz. “Buscamos fortalecer a saúde mental por meio da escuta coletiva, da valorização da cultura, da espiritualidade, dos saberes ancestrais e do apoio entre as próprias mulheres”, aponta.

Lição 1: rede de apoio e tarefas coletivas

Trocar experiências é outra lição ancestral que deságua na ajuda, ou seja, na rede de apoio. Cristine Tekoá confirma que, para educar uma criança, a aldeia precisa estar disponível porque esse cuidado não é de uma pessoa só. “Os irmãos, os primos, avós e tios estão sempre juntos. É um coletivo que está atento e se cuidando”, diz.

Por isso, é comum que nos territórios as crianças estejam sempre juntas. “Elas vão para a beira do rio, pescar ou tomar um banho. A gente sabe que uma vai cuidar da outra. Então, essa relação de cuidado compartilhado e comunitário acaba dando segurança para que elas se desenvolvam e também conheçam os limites de si mesma”, argumenta a professora.

A rede de apoio presente é a base de outras comunidades tradicionais, como os territórios quilombolas. Tomar conta dos mais novos quando pai e mãe precisam trabalhar fora é comum, por exemplo, nos quilombos África e Laranjituba, no interior do Pará.

No local, a educadora Joseana Moraes lembra que teve o suporte da família quando cursava a graduação em desenvolvimento rural. “Eu tive esse apoio enquanto estudava em Belém. As minhas crianças sempre têm com quem ficar e isso acontece muito ainda nas comunidades. As famílias e os vizinhos estão à disposição para as crianças”, conta.

Outro ponto em comum entre os originários e os quilombolas é a incorporação das crianças nas tarefas coletivas. Para Joseana, isso os faz entender, desde pequenos, que pertencem àquele lugar e que é preciso cuidar do território. “A gente tem essa missão de passar o nosso modo de vida. Então, elas também participam das atividades que envolvem os mutirões”, diz.

No quilombo, os mutirões são momentos de trabalho em conjunto para algo que beneficia a comunidade inteira. Pode ser a limpeza de um terreno, a plantação de uma horta, a reforma de um espaço de lazer ou a organização de uma festividade. “Atualmente, estamos construindo uma praça-bosque no território e as crianças participam das atividades desse mutirão. Isso ensina a prática do cuidado um com o outro, porque estamos ali, participando, conversando e vivendo o dia a dia juntos.”

A educadora Joseana Moraes contou com a rede de apoio familiar e da comunidade do quilombo África, no interior do Pará, quando precisou sair do local para cursar a graduação.

Lição 2: pertencer e estar junto

Pensar em atividades para que os mais novos estejam com os mais velhos é um cuidado que os adultos dos quilombos têm no dia a dia. No África e Laranjituba, uma vez por semana, os jovens ensinam os idoso a usarem smartphones e ferramentas de comunicação. O projeto faz parte das oficinas de educomunicação, uma necessidade percebida pelo Instituto Filhos do Quilombo, como explica o diretor, Raimundo Magno.

“A juventude, hoje, está muito mais cheia de informação e nossos idosos estão aprendendo com os jovens a usar o celular, a saber quando uma informação é verdade ou não e a acessar ferramentas simples. É uma troca de saberes e todos se sentem valorizados”, explica. Raimundo argumenta que esse momento leva os meninos a se sentirem pertencentes por ensinarem seus pais, tios e avós a usarem ferramentas que eles sabem um pouco mais.

Outra estratégia é estimular com as crianças brincadeiras antigas, na rua, em grupo e lembrando a época dos pais e avós. Nessa linha, Joseana conta que, além da escola dentro da comunidade, as crianças e os adolescentes participam de rodas de capoeira e de partidas de futebol.

Três vezes na semana, eles se reúnem no barracão para a capoeira fazendo coro e palmas ritmadas. Não tem celular nem joguinhos online. Pela tarde, o pôr-do-sol chama para as partidas de futebol. A ideia é ninguém ficar de fora. Quem não joga, participa da torcida ou da organização. O importante é estar junto.

“A infância na nossa comunidade ainda é bem vivida. As crianças aproveitam o seu momento de crianças e ainda brincam do que eu brincava quando menina”, diz Joseana. “Isso é importante porque eles crescem sabendo que podem se divertir e também contar com cada um como comunidade. Eles aprendem isso tanto nas brincadeiras quanto nos mutirões e na rotina.”

No quilombo África, em Moju (PA), os adultos organizam atividades para incluir crianças e adolescentes na rotina da comunidade, como as rodas de capoeira e os mutirões de limpeza e organização de festas.

Lição 3: desacelerar

Mexer com a terra, brincar com os animais e estar no tempo sem a pressa do relógio é uma vivência que Cristine Tekoá só consegue dentro da comunidade. “Acredito que os ensinamentos originários podem provocar a sociedade moderna a se reconectar com a natureza e cada pessoa com elas mesmas, em um tempo mais lento, onde podemos aprender a lidar com essa relação de esperar, de escutar, de sentir.”

A infância tem muito disso, ressalta Cristine, pois as crianças estão aprendendo a sentir o tempo, a olhar a chuva, perceber o vento, a água e a observar os animais. “Nas cidades, muitas vezes as pessoas não sentem mais as coisas. Elas não escutam os códigos do tempo e do corpo. A ancestralidade pode ajudar a despertar a consciência para curar essas feridas da Terra e fazer um caminhando mais lentamente”, afirma. Nesse contexto, outra lição que fica é a importância de aprender com as crianças a olhar para o mundo sem pressa.

Na aldeia Rio Silveira, em São Sebastião (SP), Cristine Tekoá percebe com as crianças a importância de desacelerar e sentir o tempo da natureza e do corpo.

*Fonte: Livro “Bem Viver: Saúde Mental Indígena” (Fiocruz)

**Fonte: Artigo “Ser criança, crescer e aprender como um Xikrin”, de Clarice Cohn

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