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Meu filho ama videogame: e agora?

Um menino de pele clara joga em um notebook. A imagem ilustra uma matéria sobre Marco Legal dos Games.

O uso de videogames por crianças e adolescentes nem sempre pode virar um problema. Especialistas defendem que é preciso superar a ideia simplista de que “todo videogame faz mal”, já que esse tipo de visão pode atrapalhar mais do que ajudar na mediação familiar. Quando usados com equilíbrio, os jogos digitais podem, sim, oferecer oportunidades de aprendizado, diversão e até socialização.

Recentemente, o ECA Digital estabeleceu regras mais rigorosas para que as plataformas digitais criem um ambiente digital mais seguro para crianças e adolescentes. Há obrigações que vão desde o desenvolvimento de seus produtos, com padrões de design apropriados à idade, até a ampliação de mecanismos de controle parental.

Na prática, se antes a classificação focava majoritariamente em temas como violência, sexo, nudez e drogas, agora a legislação também avalia os riscos de interatividade, como o contato com desconhecidos via chat de voz ou texto, compras internas e microtransações, interações com inteligência artificial ou exposição a conteúdos inadequados por meio de outros jogadores.

“Isso significa que um jogo indicado como “livre” ou para 10 anos que tenha chat de voz aberto ou loot boxes [caixas de recompensa] pode receber classificação mais alta ou descritores claros de interatividade, ajudando os pais a entenderem melhor os riscos reais, mesmo sem jogar”, explica Agesandro Scarpioni, coordenador acadêmico do curso de graduação em Jogos Digitais da FIAP.

Design do jogo faz diferença

A arquitetura do design de um jogo pode fazer toda a diferença. Ivelise Fortim, psicóloga e presidente do Instituto Criança em Jogo, ONG dedicada à proteção de crianças e adolescentes no ambiente de jogos digitais, explica que alguns jogos têm mecânicas com sistemas de progressão que podem incentivar a permanência e gerando longas sessões jogando, enquanto outros oferecem possibilidade de compras gerando pressão para gastar.

“Os jogos variam muito em seus objetivos e design. Há jogos diferentes, alguns melhores, outros nem tanto, para crianças de diferentes idades. Para verificar se há problemas, é preciso entender se a criança tem capacidade de parar sozinha ou se precisa de ajuda, se tem mudanças significativas de comportamento, e se há impactos em outras atividades diárias, como problemas no desempenho escolar, por exemplo”, salienta.

Aliado no desenvolvimento da criatividade e pensamento lógico

Na casa do professor de Educação Física Luiz Carlos Muner Júnior, o videogame e os jogos digitais ajudam a aproximar a família e são aliados da aprendizagem dos filhos Julia Muner, de 16 anos, e até de Giovanni Muner, de 4, que ama Minecraft.

“Esse é um tipo de jogo que desenvolve bastante a criatividade e o pensamento lógico por meio da construção das casas e dos territórios. Essa semana vi ele jogando e enfileirando os blocos na perspectiva correta, depois empilhando de forma ordenada e sendo bastante criativo em relação ao material que ele estava usando para a construção”, conta Luiz Carlos.

Os jogos não devem ocupar o papel nem de vilões nem de salvadores, na visão de Scarpioni. Mas trata-se de uma área que gera milhões de empregos no mundo todo e representa um setor econômico importante no Brasil. “Eles fazem parte da vida digital de hoje e podem trazer diversão, aprendizado e socialização quando usados com critério e acompanhamento. As famílias devem acompanhar esse universo, não como fiscais rígidos, mas como guias curiosos e protetores”, acrescenta.

Ele lembra que os controles parentais não eliminam, por exemplo, problemas como o bullying e até o grooming, nome dado ao fenômeno que ocorre quando um adulto ganha a confiança de uma criança ou adolescente para praticar algum tipo de exploração ou manipulação.

Como caracterizar uma relação saudável

O que diferencia o uso saudável ou excessivo de videogames não está ligado apenas ao tempo de tela, mas principalmente ao impacto desse acesso na vida da criança e do adolescente.

Scarpioni orienta as famílias a observarem se o jogo está interferindo nas responsabilidades principais das crianças, como estudar, fazer lição de casa, cuidar da própria higiene e manter a rotina, como dormir bem.

“O sono ruim é um dos efeitos mais comuns e rápidos do uso excessivo, e ele piora tudo: humor, concentração e saúde mental. Além disso, é preciso observar a reação quando o jogo é limitado ou interrompido. Fica extremamente irritado, agressivo, ansioso? Fica triste? Tem crise de choro ou grita? Faz chantagem emocional? Isso pode indicar possível sintoma de abstinência ou perda de controle.”

Outros pontos a serem observados é se houve perda de interesse em outras atividades, abandonou hobbies, se há um isolamento social progressivo e se mente quando fala sobre o jogo, omitindo quanto tempo joga e se fica defensivo quando é perguntado.

A psicóloga Ivelise Fortim reforça que o uso saudável é aquele que se integra à rotina sem prejudicar sono, escola, relações ou outras atividades, e em que o usuário consegue parar de jogar sem grandes conflitos. “Já o uso de risco aparece quando o jogo passa a ser prioridade sobre tudo, gera irritação ao interromper, compromete responsabilidades ou se torna a principal forma de lidar com emoções. Ou seja, mais do que contar horas, as famílias devem observar o comportamento, equilíbrio e capacidade de autocontrole.”

Para ela, os jogos online podem funcionar como importantes espaços de socialização entre crianças e adolescentes, já que são ambientes usados para fazer e manter contato com amigos. O problema ocorre quando essas interações digitais passam a substituir totalmente o convívio offline ou acontecem em ambientes tóxicos e marcados por agressividade.

“O equilíbrio está em acompanhar com quem se joga, incentivar também relações fora da tela e valorizar experiências online mais colaborativas do que apenas competitivas. Assim, o jogo deixa de ser um fator de isolamento e passa a ser mais uma forma de conexão”, finaliza Ivelise.

O papel da família para ser um “guia curioso e protetor”:

Tudo tem seu tempo: O jogo é saudável enquanto se integra à rotina sem prejudicar o sono, os estudos e as relações fora da tela.

Gamer por uns instantes: Converse sobre o que eles jogam, por que gostam daquele jogo e até experimentar a atividade juntos ajuda a entender os riscos e valorizar os ganhos.

Viva o ECA Digital: A classificação indicativa e os controles parentais são filtros úteis para garantir que o conteúdo seja adequado à maturidade da criança, permitindo que ela aproveite o melhor dos jogos com segurança.

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