Livro conta a infância de crianças que vivem nas periferias

A publicação reúne histórias de crianças que moram na periferia de São Paulo e do Nordeste

Da redação Publicado em 12.11.2018

No mês da Consciência Negra, fica ainda mais evidente a importância de conversar com as crianças sobre a diversidade das infâncias e representatividade, a fim de oferecer a elas referências diferentes de sua vivência e ampliar seu repertório de mundo. Melhor ainda se puder fazer isso incentivando a leitura

No dia 1º de dezembro (sábado), a Biblioteca Municipal José Paulo Paes, na Penha, zona leste de São Paulo, recebe o lançamento do livro “Contos de infâncias periféricas“. Trata-se de um projeto do Coletivo Tenda Literária, que surgiu com o objetivo de transformar praças públicas em espaços culturais, com oficinas e saraus voltados para a produção da literatura periférica.

A publicação reúne histórias de crianças que moram ou moraram na periferia de São Paulo e do Nordeste. Diversos autores – dentre professores, escritores e profissionais de áreas não necessariamente relacionadas à escrita, rememoram suas experiências de infância.

Misto de realidade com ficção, as histórias narram lembranças que passam pela nostalgia de ter sido menina ou menino, e também pela dor de vivências difíceis, como a ausência do pai, a pobreza e a precariedade, dentre outras situações. No dia do lançamento, o livro será vendido pelo valor de R$ 20.

Leia alguns trechos do livro:

“Pra falar de minha infância, preciso falar de cheiros, sons, sabores, estrelas e sonhos. Preciso falar do cheiro do café da manhã que me acordava todos os dias, café feito com o carinho das mãos de minha mãe. Preciso falar das canções que a manhã me trazia: canções sobre justiça, fé e paz, que ainda as repito como preces.”

“Sobre estrelas e sonhos”, de Camila Freitas

“Ele sempre fora da família, mas nunca fora tão próximo de mim. Vivia igual a nossa vida sofrida, de escassez e esperanças, mas com poucos latidos, num silêncio solidário. Talvez por não saber de muita coisa. Por não saber, por exemplo, que havíamos mudado para ali, aquele canto no mundo, à beira da Serra de Pacatuba, para onde mandavam os pobres de Fortaleza, e por não saber que anos mais tarde eu saberia que outras cidades grandes tinham outros cantos de mundos para onde outros pobres indesejáveis no centro das capitais eram mandados.”

“Rossi”, de Raimundo Justino da Silva

“Olha, até compreendo que a vida na periferia tenha seus perigos e espinhos, mas nada disso impede que a molecada possa brincar nas ruas com seus vizinhos. Não temos centros culturais, parques, quadras poliesportivas; não temos dinheiro pra ir ao cinema ou teatro ou seja o que for. O que temos aqui são piscinões e terrenos baldios cheios de ratos e que, ainda assim, desaparecem com a enxurrada de casas, favelas e, de uns tempos pra cá, aqueles edifícios grandes, daqueles que tomam conta de tudo, sabe, cobrindo até o nascer ou o pôr do sol de todo mundo. Compadre, você sabe, a rua era o melhor espaço pra gente brincar de futebol, esconde-esconde, bolinha de gude, pião, soltar pipa, trocar figurinhas etc.”

“Dessonhadeiros”, de Célio Sales

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